quinta-feira, 25 de março de 2010

Reinauguração

Saí do meu antigo emprego em novembro. Comecei no meu novo emprego em dezembro. Voltei ao meu casamento e o desmanchei em inúmeras vezes nos últimos meses. Sofri e desesperei-me, alegrei-me e trabalhei duro para mostrar serviço no admirável mundo novo da internet. E entre tantos sobressaltos e descompassos, confesso, chegando finalmente ao lead: deixei a literatura um pouco de lado, os livros sem instantes, o blog para depois. Mas este sempre chega. E me veio à noite, mais precisamente de madrugada, depois de rascunhar uma matéria que pretendo escrever mais com a pena do que com o teclado. Pena pela história do outro e pelo som que ela faz ao arrastar-se sobre o papel, em confidência. Que vida há mais do que expormos a nossa própria, do que humanizarmos a do outro pondo-nos em seu lugar? Posso fazer as duas. Com o blog, a minha. Com a minha profissão, a do outro. Pretendo prometer que não mais deixarei esse blog de lado, pela sanidade da minha. Pela volúpia de contar-me, expor-me aos olhares dos outros. O que é a literatura, além disso? O que é a literatura além da nudez explícita do que somos, de quem somos, do que podemos ser? Palavras, sou-lhes, na liberdade da construção antigramatical de Fernando Pessoa. Palavras, sejam-me.(Leda Balbino)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Luto Argentino


Sempre olhei a Argentina com olhos de admiração. Simplesmente porque nosso vizinho tem vocação para a cultura e para a sensibilidade. Das tirinhas inteligentes de Mafalda à música genuína de Mercedes Sosa. Falo da Argentina porteña, do tango das ruas, do labirinto de Borges e das fantásticas histórias de Cortázar. Por tudo isso e por algo que nem sempre podemos racionalizar Buenos Aires me encanta. E por tudo isso, fiquei triste hoje ao saber da morte do jornalista/escritor Tomás Eloy Martinez, autor, entre outros de Santa Evita, o romance argentino mais traduzido na história. Não li -- ainda Santa Evita. Descobri Martinez por um romance de muito menos expressão -- O Cantor de Tango. Ao folhear a primeira página do livro, encontro algo do gênero: Buenos Aires para mim é literatura. Comprei o livro imediatamente. Pois é isso que Buenos Aires e o cheiro de seus cafés representam para mim: literatura. O Cantor de Tango não está entre os livros preferidos mas conheci Tomas Eloy por ele. E só isso valeu a pena. Pude ler várias de suas entrevistas mais tarde e alguns de seus textos. Só constatei que a Argentina era dona de mais um escritor talentoso. E mais uma vez, de luto, enterra um pouco da sua história. (Daniela Diniz)

ps: leia post de Ariel Palacios e uma entrevista maravilhosa com Tomas Eloy em http://blog.estadao.com.br/blog/arielpalacios/

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Amor de irmão

Sou irmã do meio, o miolo entre um irmão mais velho e uma irmã mais nova. E, como todo mundo que tem irmãos, já passei por algumas fases da vida de dividir o cargo de irmã mais nova e mais velha ao mesmo tempo, o que me fez pensar nesse texto há algum tempo. Passei pela fase do medo, do descobrimento, do compartilhamento, da raiva, do descaso, do cuidado e da admiração. Vivi cada uma delas – às vezes de forma intensa; outras, descompromissada. Dividi casa de pai e mãe com irmãos; dividi um apartamento só com eles; dividi por quase a vida toda um quarto com minha irmã. Dividi bons momentos da minha vida ao lado deles. Momentos que voltam de forma tão simples e tão fácil. Basta uma palavra e um mundo de recordações nos toma. Reunião de irmãos é encontro de lembranças. E isso faz tão bem à alma. Eu encontrei meus irmãos outro dia, num feriado de sol e como falamos bobagens. Reunião de irmão não precisa de pauta para ter assunto. O passado rende pelo presente. E foi assim. Rimos daquilo que vivemos juntos e dividimos juntos. Irmãos nos tornam múltiplos sendo nós apenas únicos. Eles carregam um pouco do que fomos e daquilo que vamos ainda ser. Ter irmão é conhecer da melhor forma o sentido da palavra cumplicidade. Pois são muitas as pessoas que passam em nossas vidas. Muitas as que entram e vão embora e até as que entram e ficam para sempre. Mas os irmãos não. Eles não entram em nossas vidas. Eles nascem com a gente. E, por mais que se distanciem nas rotas do mundo, a história os unirá para a eternidade. E isso é o mesmo que unir as duas pontas da vida. (Daniela Diniz)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os próximos títulos

Entre novembro e dezembro, preciso arrumar espaço na estante para guardar mais livros. Explico: novembro é mês do meu aniversário e dezembro, claro, é Natal. No último domingo, ganhei quatro novos títulos: Contos da Vida como Ela é, do singular Nelson Rodrigues; Grande Sertão: Veredas, do mestre Guimarães Rosa; O Compromisso, da recém Nobel Herta Müller e, da amiga das palavras, Leda Balbino, ganhei um "pequeno" volume de 800 páginas de Vargas Llosa: Conversa na Catedral. Adorei todos. Ler Nelson Rodrigues é sempre um prazer, um momento de diversão. Conhecer a vencedora do Nobel é quase um dever para quem gosta de literatura. Abrir o chamado "o" livro de Guimarães é conhecer e se transportar para um novo mundo de cenários e de e de palavras. E Llosa? Ah..sim, esse eu preciso conhecer melhor. Aos 32 anos, recém completados, eu só conheço as belas frases de seus artigos. Leda me convidou a ir além. Diante de tantas palavras ainda escondidas, difícil vai ser escolher qual título irá substituir o delicioso romance de Erico Verissimo, O Resto é Silêncio, que estou lendo. Em breve, conto para vocês qual deles me buscou na estante. (Daniela Diniz)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

As respostas de Llosa

O ensaio de Mario Vargas Llosa (Em Defesa do Romance) na última edição da Piauí foi um dos melhores textos que já li nos últimos meses. Um alívio para os olhos infectados depois da última reportagem rasa e estúpida da Galileu. Lá, além de um texto delicioso, encontrei várias respostas para nossas últimas indagações presentes aqui. Ele defende – não só o romance – mas a literatura em geral. Defende, sobretudo, as palavras. Sabe aquela história de que ler um livro não é mais fundamental? Llosa tem uma resposta à altura: “Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que lê apenas porcarias, pode falar muito, mas dirá sempre poucas coisas, porque para se exprimir dispõe de um repertório reduzido e inadequado de vocábulos. Não se trata apenas de um limite verbal; é, a um só tempo, um limite intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as ideias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, por meio das quais as reconhece e define a consciência. Aprende-se a falar com precisão, com profundidade, com rigor e agudeza, graças à boa literatura, e apenas graças a ela.” Depois disso tudo, dá vontade de calar. Eu não precisaria ler mais nada mas o ensaio não acaba aí. Ele também tem uma resposta magnífica para a discussão sobre a morte do livro pela tecnologia. “Pode o monitor substituir o livro em todos os casos, como afirma o criador da Microsoft? Não estou seguro disso. Digo isso sem negar, de modo algum, a revolução que no campo das comunicações e da informação representou o desenvolvimento de novas técnicas (...); mas daí a admitir que a tela eletrônica possa substituir o papel no que concerne às leituras literárias há uma lacuna que não consigo preencher. Simplesmente não sou capaz de aceitar a ideia de que a leitura não funcional nem prática, a que não busca uma informação nem uma comunicação de utilidade imediata, possa conviver na tela de um computador com o sonho e com a fruição da palavra, gerando a mesma sensação de intimidade, a mesma concentração e o mesmo isolamento espiritual do livro.” Enquanto o livro representar sonho, intimidade e provocar o isolamento fundamental, ele viverá, independentemente de telas frias, objetivas e públicas. Foi a melhor resposta que encontrei para o atual dilema, que me deixou sem mais palavras. (Daniela Diniz)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Poesia, por Ferreira Gullar


Antes de escolher o jornalismo, as palavras me escolheram, e foram elas, por fim, que me incitaram o desejo de ter como ofício a escrita nas redações. Sempre li os jornais de trás para frente, pois, além da literatura, o que sempre me interessou mais foi a área de internacional - na qual trabalho há quase sete anos. Mas sempre fica essa ponta de dúvida se não seria mais feliz cobrindo cultura em um caderno ou revista quaisquer. Essa vontade me bateu novamente no dia 16, quando li o número 2 do semanal Outlook, do novo jornal Brasil Econômico. Textos bem escritos, temas menos áridos do que os conflitos afegão, iraquiano e entre Israel e palestinos, e como desfecho uma entrevista-pérola com o poeta Ferreira Gullar. Deve ser uma experiência interessante entrevistar um escritor. Você não precisa ter um conhecimento prévio do ano histórico da assinatura histórica de um acordo histórico para a paz mundial. Basta saber a vida daquele autor, ter-se deliciado previamente com algumas de suas obras e deixar à flor da pele a sensibilidade necessária para saber ouvir alguém de sensibilidade ímpar. No meio da entrevista, a repórter faz a pergunta inusitada, incomum, surpreendente até: "Você se comove?" A um político, para quem poderia soar como pueril ou intrometida, a questão parece improvável, mas para esse poeta - e essa entrevista - foi imprescindível. "Se eu me comovo? Não faço outra coisa na vida a não ser me comover. Tenho de me segurar, eu não quero ser desintegrado pela emoção, ela não é uma coisa boa. O (poeta inglês) TS Elliot dizia que escrevia para se livrar da emoção. Porque ela vulnerabiliza. A poesia é para trazer alegria, não provocar emoção", respondeu. Não contente, a jornalista voltou à carga: "Mas a gente pode se emocionar, pode chorar lendo um poema..." Ao que Gullar foi categórico: "Não é o poema que comove, é a lembrança que ele provoca. O que o poeta faz é a alquimia do sofrimento em alegria. Nenhum poeta escreve para fazer sofrer, quem diz isso diz mentira. A poesia não foi feita para torturar, para magoar ninguém. Quando alguém força para provocar o choro é outra coisa, é dramalhão, sentimentalismo, não é poesia. A poesia é alegria estética." (Leda Balbino)

O Fim do Livro 2

Uma pesquisa realizada pelos organizadores da 61ª Feira do Livro de Frankfurt, que ocorreu entre os dias 14 e 18 deste mês, vaticinou: o livro digital superará o impresso em meros nove anos – precisamente, 2018. A previsão foi feita a partir de consultas com editores, livreiros, escritores e jornalistas, majoritariamente europeus, num total de 840 pessoas. A crise econômica, segundo os entrevistados, seria o principal estimulante para a mudança, por causa do alto custo da produção do modelo em papel. Ou seja, pode ser que, até 2018, “à medida que os fundos de catálogo passem a ser oferecidos eletronicamente, o digital ultrapasse o papel em termos de importância econômica para as editoras”, disse a diretora editorial da brasileira Record, Luciana Villas-Boas, em relação especificamente aos EUA e a alguns países da Europa (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091014/not_imp450117,0.php). Mas a aposta não é a mesma em relação ao Brasil. Num país de muitos iletrados, analfabetos funcionais e marginalizados digitais, seria até mesmo muito otimismo pensar que os leitores substituiriam um modelo pelo outro. Aqui independe do meio – virtual ou real – o fato de quase não se ler. (Leda Balbino)